Jacqueline Monteiro, o violino e a música

Foto: https://pt.gf.me/v/c/gfm/estadia-em-londres

Jacqueline Monteiro é violinista. Toca desde tenra idade e, aos 22 anos, já completou a licenciatura em violino na Academia Nacional Superior de Orquestra. Iniciou-se neste instrumento através do projeto Orquestra Geração, em Vialonga, tendo depois frequentado a Escola Profissional Metropolitana de Lisboa. Foi recentemente admitida com sucesso para fazer mestrado na Guildhall School of Music and Drama, em Londres, o que lhe valeu também uma bolsa de mérito. Jovem instrumentista, Jacqueline lançou uma campanha de crowdfunding para conseguir chegar a Londres e seguir o seu sonho de tocar violino profissionalmente.

Pedi-lhe que nos falasse um pouco de si.

Gostaria que nos dissesses onde tocas atualmente.

Atualmente faço parte da Orquestra Juvenil Geração e tenho um quarteto formado por quatro mulheres que se intitula Active Mess.

Como foi o teu primeiro contacto com a música? Tens alguém na família com ligação à música?

O primeiro contacto com a música/violino foi no meu 1º ano de escolaridade, ou seja, com 6 anos de idade. Foi sugerido na minha escola na altura a prática de aulas de violino e eu, bastante curiosa para saber como seria, perguntei à minha mãe se podia fazer parte, e foi aqui o meu primeiro contacto com a música clássica, não tive nenhuma influência ou alguém na família que tocasse, foi mesmo por pura curiosidade.

Porquê a escolha do violino?

Na verdade, não tive opção, quando implementaram a música na escola o único instrumento disponível na altura era o violino.

Sei que a aprendizagem da música “clássica” é bastante exigente. Houve momentos em que te apeteceu desistir? Ou sentiste sempre que era isso que querias, aprender violino para tocar profissionalmente?

É verdade, é bastante exigente e houve sim um momento que pensei em desistir, que foi no meu 10º ano, quando prossegui os meus estudos na Escola Profissional Metropolitana de Lisboa. Diria que o choque de ir para uma escola onde era música a tempo inteiro e em que o nível era bastante alto senti que não seria capaz de acompanhar por ser muito exigente, mas, felizmente, o meu professor na altura, César Nogueira, incentivou-me e mostrou-me que tudo era possível se trabalhasse, disse ainda que seria uma pena eu desistir pois achava que eu tinha jeito, então depois de uma conversa também com a minha mãe decidi ficar!

O que pensas do ensino da música “clássica” em Portugal? Achas que é muito “fechado” ou te dá ferramentas para poderes enveredar por outros géneros musicais, caso o pretendas fazer?

Não creio que exista essa abertura na música clássica para “estilos diferentes” e vice-versa, muitas vezes no jazz ouvimos “isto não é clássico” como se fosse uma coisa má. Sou de opinião que a música clássica e o jazz complementam-se em vários aspetos, e, de certa forma podia haver um “senso” de entre ajuda.

Em relação à música clássica diria que seria preciso ter o à-vontade/aproveitamento e entrega que existe no jazz, a coragem e incentivo para o improviso e para o que não é “confortável”. Quanto àquilo que o clássico pode oferecer ao jazz, com a probabilidade de poder estar completamente errada visto que não é uma área com que estou familiarizada, mas, talvez a valorização da música escrita.

E a tua experiência como violinista? O que gostas mais de tocar? Em que formato?

De todas as formações, a que realmente me conquistou, sem dúvida, é a orquestra. Adoro trabalhar em equipa e poder partilhar o que sinto não só com o público, mas também com quem toca ao meu lado. Basicamente para mim tocar em orquestra traduz-se numa história, existe um ditado que diz “quem conta um conto acrescenta um ponto” e é exatamente isso que eu sinto quanto toco em orquestra, pois o “conto” é igual para todos, porém, a interpretação é única dependendo da orquestra e do maestro, fazendo com que haja sempre algo a dizer/mudar/descobrir/encobrir, enfim um mundo de conceitos e sentimentos a serem explorados fazendo desta formação uma experiência incrível. Uma das obras que mais gosto, e gostei de tocar é o 2º andamento da 5ª sinfonia de Tchaikovsky, aquela cama/base harmónica feita no início do andamento para o solo da trompa é realmente genial.

Contudo, faço parte de um quarteto (3 violinos e um violoncelo) que se chama Active Mess e que nada tem a ver com o clássico, a maioria das músicas que interpretamos são do estilo Pop, mas, ultimamente temos explorado mais música tradicional, começamos com música cabo-verdiana visto que dois dos membros são de Cabo Verde, e a partir daqui seguiremos à procura de outros estilos para interpretação até encontrarmos a nossa própria linguagem dentro da música.

Fala-nos um pouco do projeto Orquestra Geração e da sua importância.

A Orquestra Geração……

Bom a Orquestra Geração é um projeto de inclusão social com o objetivo de tirar as crianças “da rua” e inseri-las na música, mas, mais do que isso cria /oferece uma alternativa/um caminho diferente às crianças!

A orquestra é realmente muito importante na minha vida pois foi lá que tudo começou, faço parte da orquestra desde a sua criação, em 2007, e onde, hoje, sou não só aluna como também professora. Tenho a dizer que foi aqui, nesta família que a maior parte do meu caracter e dos meus valores foram formados, juntamente com o meu sonho de ser uma grande violinista e professora.

Nesta Família onde os principais valores são disciplina, trabalho em equipa e paixão, foi-me possível viajar pelo mundo e conhecer não músicos e maestros incríveis como também pessoas extraordinárias! Durante essas viagens percebi que por mais que as culturas ou os idiomas pudessem ser diferentes falávamos todos a mesma língua…a linguagem musical.

A música move pessoas e move horizontes, por isso só tenho a agradecer a este projeto que mudou a minha vida de uma maneira inacreditável.

A orquestra Geração realmente fez, e faz a diferença!

Achas que por seres uma mulher negra e por teres crescido na periferia de Lisboa, caso não existisse a Orquestra Geração, terias igualmente estudado música?

Sinceramente, não acho que seria possível sem a Orquestra Geração, e não, certamente não teria estudado música, isto porque infelizmente o sistema de educação não está adequado ao seu tempo… como é que temos o mesmo sistema de educação de há anos atrás sendo que a história tem evoluções constantes?

Digo isto porque por mais que neguem os pretos aqui em Portugal quando acabam o 9º ano de escolaridade o mercado de trabalho que os espera é sempre o mesmo….trabalho doméstico, a mecânica, a construção civil, e mais antigamente a jardinagem, não desvalorizando estes trabalhos, que são muito dignos, mas sim criticando, por acharem que não somos capazes de mais, então ser uma preta e violinista, tocando “música tão sofisticada” deve ser o escândalo.

Na escola lembro-me muitas vezes de ter ouvido a seguinte frase “Ah é preta/o?!?!?! Então com certeza é da Orquestra Geração”, dizendo então que se não fosse pela Orquestra Geração os pretos não seriam músicos?!?!?! Ou porque acham que na Orquestra Geração são só pretos?!?!?

Isto tudo para dizer que acho que existe racismo na música e que sim existem desigualdades exatamente por esse mesmo motivo, a crença de que existe uma “raça” superior à outra e que a cor da pele define automaticamente o teu futuro.

Sabemos que estás com um projeto de crowdfunding para ires estudar música para Londres. Fala-nos sobre isso.

Verdade!! Criei uma campanha para angariar fundos para a minha estadia em Londres no meu primeiro ano de mestrado em performance.

Em novembro de 2020 fiz provas de ingresso a mestrado na Guildhall School of Music and Drama em Londres, onde, com sucesso, fui aceite e ainda premiada com uma bolsa de mérito pela minha prestação durante as provas, porém, tanto a universidade como o custo de vida em Londres são bastante elevados, e, por isso, criei o crowdfunding para pedir a ajuda de todos.

Estudar nesta universidade, para mim, sempre foi um sonho, pensava eu que não passaria disso mesmo, por não confiar piamente nas minhas capacidades enquanto violinista, mas, uma vez que consegui provar a mim mesma, e ao júri da prova, que sou capaz, não quero de todo perder esta oportunidade única por questões monetárias.

O curso, mestrado em performance, tem duração de 2 anos, o valor servirá então para todas as despesas mensais da casa como renda, luz, gás, água, alimentação entre outros. Durante o primeiro ano a ideia é usar esse dinheiro para estes fins, porém é meu objetivo também conciliar o estudo com um trabalho para que no segundo ano consiga pagar a estadia com o dinheiro que tiver poupado até então.

Dado isto, seja a quantia que for, ou mesmo a partilha da angariação de fundos ajudaria muito, esforçar-me-ei para obter os melhores resultados, como tenho feito até então, para alcançar o sucesso e espero de coração que vocês possam fazer também parte dele!

https://pt.gf.me/v/c/gfm/estadia-em-londres

Nota: esta é uma entrevista feita por escrito.

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