Kora: o antes e depois de Sona Jobarteh

Fonte: conexaoafrica.com

Sona Jobarteh é a primeira mulher de uma família Griot a tocar kora profissionalmente. É, por isso, a primeira mulher a transmitir a tradição dos seus antepassados e da cultura Mandinga da Gâmbia. São assim chamadas, Griot, certas famílias da África Ocidental que, por tradição, levam de geração em geração a cultura do seu povo, os conhecimentos, as histórias, e a sua música. São famílias de artistas em que cabe ao homem passar esse conhecimento; na de Sona Jobarteh, esse legado já vem desde há sete séculos, mas pela primeira vez na História, cabe a uma mulher desempenhar esse papel.

Sona nasceu em Londres em 1983. É instrumentista, cantora, improvisadora e compositora. Toca kora desde a infância no seio familiar e, mais tarde, frequentou escolas conceituadas como a Royal School of Music e a Purcell School of Music. Sona estudou também música clássica, piano e violoncelo, mas foi com a kora que encontrou o universo musical mais poderoso para se expressar e comunicar, indo ao encontro das suas raízes.

A kora é um instrumento muito místico. Pela sua história, pelo som que transmite, pela música que toca, traz consigo magia. De uma técnica bastante difícil, é composto por vinte e uma cordas e é simultaneamente similar a uma harpa e a um alaúde. Para tocar este instrumento profissionalmente são necessárias horas de estudo e concentração. São ritmos e melodias que se repetem em ciclos, quase como mantras. Sobre essa base cíclica, tal como sobre um ostinato ou um riff, constroem-se variações e improvisos.

Escutar a música de Sona Jobarteh é mergulhar profundamente nas suas raízes, mas é também encontrar bases da música clássica, do jazz, do blues e até de algum rock ou pop. Contudo, devido à história colonialista do mundo, o mais provável é ter sido a música da Gâmbia a influenciar o blues, o jazz, o rock, mesmo que indiretamente.

Sona gravou ainda poucos álbuns, pois para si o determinante não é o número de álbuns que consegue lançar, mas, sim, o processo criativo e, para se dedicar a ele, pode demorar o tempo necessário. Destacam-se, entre os seus álbuns, Motherland – The Soundtrack to the Motion Picture, 2010, Fasiya, 2011, e Innovation Through Preservation, 2019.

Em Fasiya, podemos escutar músicas como “Jarabi”, com forte presença de ritmos africanos no djembé e marcados pelos ostinatos na kora, ou “Musow”, com um traço mais pop. Neste último álbum, Sona surge também a cantar, acompanhada por back vocals que são um elemento bastante característico da sua música.

Ao ver a dificuldade que havia na Gâmbia para muitos jovens continuarem os seus estudos, Sona decidiu dedicar-se também à educação e à formação: é diretora e fundadora da Academia da Gâmbia – uma instituição que preserva a música, a história e a cultura para os jovens deste país. É uma escola que ensina várias disciplinas, mas com foco na música.

Talvez possamos encontrar outras mulheres a tocar kora pelo mundo, mas, no caso de Sona Jobarteh, a magia e a sua grande conquista estão no facto de ser a primeira mulher Griot a fazê-lo, e muito bem.

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