Y’Y Amaro Freitas

Psychic Hotline

Combinando técnica e expressividade singular, o pianista pernambucano Amaro Freitas exibe uma música cada vez mais própria, complexa e sensível. Juntam-se os convidados Hamid Drake, Shabaka Hutchings, Jeff Parker, Aniel Someillan e Brandee Younger.

O novo disco de Amaro Freitas é dedicado à floresta amazónica e vai buscar o seu título “Y’Y” à língua sateré-mawé, cujo significado é alusivo a água. Mergulhar na escuta deste disco é também submergir na cultura indígena, no imaginário mágico da existência infinita, na ideia de possibilidade de vida onde seres encantados habitam a floresta, cada um com um propósito especial. Afinal, nem tudo é apenas aquilo que se vê.

Amaro Freitas é pianista. Ao escutá-lo por uns instantes logo se percebe que a sua música é, ela mesma, encantada. Ouvir o trabalho de um músico e entender de imediato que se está na presença de um artista genial é algo raro. A descoberta frenética vicia o ouvinte naquele momento arrebatador de fortes emoções. O encontro com o novo disco do pianista é assim – simples e carregado de uma energia que vem não se sabe de onde. Amaro Freitas nasceu no Recife (Brasil), aprendeu música na igreja que frequentava e estudou no Conservatório Pernambucano de Música. Ao enveredar pelos caminhos do jazz, dos ritmos populares e da cultura afro-brasileira, promoveu a comunhão de muitos mundos. Gravou três álbuns em nome próprio, “Sangue Negro”, “Rasif” e “Sankofa”, e acaba de lançar o novo “Y’Y”, com selo Psychic Hotline. Na sua obra percebe-se um fio condutor: a ideia de descolonização e reconhecimento da ancestralidade que se expressa na linguagem musical. Desde março, tem andado a percorrer várias cidades na Europa e tem espantado o público e a crítica – esteve no também em Lisboa e em Ovar.

A estética de “Y’Y” está carregada de simbolismo. No séc. XXI, é um grito de alerta e, simultaneamente, um ato de coragem. Em sentido filosófico, é um disco de forte cunho político sem necessitar de proferir uma palavra. Além de Amaro Freitas, o disco conta com a participação de diversos convidados: Hamid Drake na percussão em “Encantados”, Shabaka Hutchings na flauta em “Y’Y” e “Encantados”, Jeff Parker na guitarra em “Mar de Cirandeiras”, Aniel Someillan no contrabaixo em “Encantados” e da harpa de Brandee Younger em “Gloriosa” – todos grandes referências musicais.

A música de Amaro Freitas está a tornar-se cada vez mais própria, complexa e sensível. Acima de tudo, cada vez mais livre. A técnica é brilhante e a expressividade singular, uma combinação peculiar que a torna muito bela e emotiva. Em “Y’Y”, tudo é possível. Em constante construção simultânea de diferentes ambientes melódicos e rítmicos, que na totalidade da escuta se entrecruzam, sugere múltiplas ligações aos mundos da natureza que o inspiram e despertam. E volta a um estado puro que se tem perdido, aos ancestrais do som, ao modo em que a natureza é ela mesma um instrumento a produzir infinitas cores sonoras. Escutar o disco do início ao fim, sem interrupções, é uma caminhada pela floresta no espaço e no tempo.

O imaginário enigmático do álbum surge desde o início, com “Mapinguari (Encantado na Mata)”, a apresentar o lado misterioso da floresta, algo assustador e sombrio, com elementos percussivos a criar ambiguidade junto com linhas agudas ornamentadas do piano. Segue-se “Uiara (Encantada da Água) – Vida e Cura” que, mantendo alguns elementos anteriores, acaba por mergulhar de forma espantosa em frases agitadas, de ritmos vincados, semelhantes a batidas de house music. A fluidez com que passa de um universo ao outro é equivalente à capacidade de escorrência da água, em sítio onde a força da gravidade predomine.

A “Dança dos Martelos” é genial na sua complexidade. É, sem dúvida, a música mais impactante do disco. Percebe-se que há uma estrutura muito bem organizada por trás do que se ouve, onde tudo encaixa na perfeição e, ao mesmo tempo, transmite caos e conflitualidade. Acelera e desacelera. Aparenta contraditoriedade, mas tudo está muito bem pensado e tocado. É um labirinto musical giratório. A divisão rítmica é levada ao ínfimo pormenor, numa obsessão que ultrapassa dificuldades psicomotoras humanas e gera ambientes polirrítmicos onde, de conjunto, é possível encontrar desenhos e acentuações completamente inesperadas que se transformam em frases que se repetem em loop e facilmente se desmontam pela inserção de novos elementos sonoros. É a persistência por excelência na combinação de ritmos binários com ternários, entre outros ritmos sincopados que se encaixam, prolongam e constroem uma narrativa conflituosa. Toda esta intricada teia torna a música muito densa e pode também relatar, na perfeição, a agonia da natureza perante o uso abusivo dela. Um grito de sofrimento perante o mundo atual.

A ideia de piano a várias vozes perdura em “Sonho Ancestral”, o tema que se torna uma viagem ao mundo da música popular brasileira ao reproduzir a melodia de “Asa Branca”. ““Y’Y”” é a faixa que dá o nome ao disco, onde participa Shabaka Hutchings na flauta, com uma base harmónica de sonoridades indígenas, sobre a qual improvisa – uma melodia bonita que se vai desenhando, mas a dada altura é contrariada com a intromissão de um ritmo forte que condiciona a fluidez inicial, acompanhados por vozes que ressoam. É o encontro de movimentos opostos ou, como diz Amaro Freitas «o encontro das águas».  

O guitarrista Jeff Parker participa em “Mar de Cirandeiras”. Talvez a música mais melódica e serena do disco, onde se sente a beleza da simplicidade. É dedicada à ciranda, uma dança que se faz em círculo, onde as pessoas dão as mãos. “Gloriosa”, conta com Brandee Younger na harpa. É um voo pelo sonho, uma canção de embalar, com leves acordes do piano a caminhar pelos tempos fortes e a sustentar os movimentos suaves em arpejo da harpa que, por sua vez, também sustem a melodia construída no piano.

“Y’Y” termina com “Encantados”, a música com a estética mais jazzística do álbum, o que também denota a ideia consciente de encontro com a cultura ancestral africana. A própria estrutura da música o diz – apresenta um tema, sobre o qual vão surgindo improvisos e variações. É aqui bastante notória a qualidade excecional de cada um dos músicos que acompanham Amaro Freitas, com excelentes interpretações e improvisações individuais.  

Neste disco, Amaro Freitas declara que pode tocar e criar o que quiser. A magia envolve a sua música. Harmonia, muita sensibilidade e acolhimento acompanham este artista. O mundo da música também é o mundo dos encantados.

Texto publicado em jazz.pt | 24/05/2024:

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