FOLHA DE SALA
LOTTE ANKER E GABRIEL FERRANDINI
O espaço e o tempo juntam agora Lotte Anker e Gabriel Ferrandini. Não é um simples encontro, é um momento único que entrelaça a experiência e a vida de ambos. Não é pouca coisa. Se imensidões de possibilidades os podem distanciar, bastam outras poucas, mas de infinita importância, para os juntar: a inquietude criadora, a mente nos antípodas da normatividade, a música experimental, o free jazz, as suas composições afirmativas que se traduzem num modo exploratório, orgânico e livre de tocar, além do teatro. A densidade aumenta proporcionalmente à delicadeza, uma relação imaginária difícil, mas esperada, com a junção deste duo. Neste encontro culmina uma residência artística que o antecedeu.
LOTTER ANKER é saxofonista e compositora dinamarquesa, uma das primeiras mulheres saxofonistas a afirmar-se e a construir uma carreira bem sedimentada na área da música improvisada e do free jazz. Em criança, começou pelo piano na vertente clássica, mas Coltrane e Shorter acabaram por influenciá-la a seguir outros rumos. Na sua música cabe a composição mais estruturada, bem como a improvisação livre e experimental. A exploração de diferentes sons e texturas, o minimalismo, a abstração, a distorção associada ao movimento expressionista são a busca continua pela sua essência musical e artística. O seu percurso começou nos anos 80 e tornou-se muito vasto: formou um quarteto com a pianista Mette Petersen, juntou-se a um trio de música improvisada com Hasse Poulsen e Peter Friis-Nielsen e formou outro com Marilyn Crispell e Marilyn Mazur. Liderou o Copenhagen Art Ensemble, junto com Ture Larsen. Formou um trio com Craig Taborn e Gerald Cleaver. Mais recentemente, colaborou/colabora com músicos como Sylvie Courvoisier, Joelle Leandre, Raymond Strid, Johannes Bauer, Clayton Thomas e Paul Lovens, Fred Frith, Ikue Mori, entre outros. Participou ainda em projetos de teatro e dança como compositora e saxofonista.
GABRIEL FERRANDINI é baterista e compositor; iniciou a prática do instrumento ligado ao free jazz e à música improvisada e rapidamente demonstrou a complexidade da sua mente artística — no seu caso, não se pode apenas falar da técnica e interpretação do instrumento. O seu caminho é muito maior, o que também se revelou nos seus discos Volúpias e Hair of the Dog. Ferrandini transitou da forma enérgica de tocar, com movimentos técnicos muito precisos, para, em Volúpias, exprimir um ambiente mais melódico, com alguma dose de poesia e romantismo, algo que Hair of the Dog veio contrastar, com uma tónica existencial, reflexiva e cerebral, mentalmente mais densa, e onde é obcessivamente analisada a acústica, talvez sob a influencia de mentores como Stockhausen. Ferrandini integra o Rodrigo Amado Motion Trio e o Red Trio; tocou com nomes como Axel Dörner, Alexander von Schlippenbach, John Butcher, Evan Parker, Peter Evans, Sten Sandell, Nate Wooley, Rob Mazurek, Raymond Strid, entre outros. Mais recentemente, tem colaborado com o encenador e dramaturgo Tiago Rodrigues em espetáculos em vários países.
A sensibilidade ao seu entorno é algo comum a Lotte Anker e a Gabriel Ferrandini e isso expressa-se na sonoridade de ambos. Não há espaço para dúvidas, a busca pela essência musical de cada um — e agora também do seu eu conjunto — é e será infinitamente poderosa, mas, simultaneamente, de uma vulnerabilidade bela.
Texto publicado em TBA (Teatro do Bairro Alto) | 29/10/2023:
https://teatrodobairroalto.pt/pt/evento/lotte-anker-e-gabriel-ferrandini
