Serralves Jazz no Parque, a quebrar barreiras

No fim de semana de 8 e 9 de julho teve lugar a segunda parte da 32.ª edição do Serralves Jazz no Parque. Desta vez atuaram Susana Santos Silva (a solo), João Lencastre’s Communion 3 e o duo Sofia Borges & Camila Nebbia. A jazz.pt reporta o que viu e ouviu no Porto.
A 8 e 9 de julho, regressámos a Serralves para o segundo e último fim de semana do Jazz no Parque, na sua 32.ª edição, e com a novidade qualitativa de mais um dia de festival, conforme anunciou o seu programador, Rodrigo Amado. A partir desta edição, e mantendo-se assim nos próximos anos, será mais um dia em que florescerá a liberdade, a criatividade e a diversidade em Serralves. De novo a quebrar barreiras, agora também aquela imposta pelo género, questionaram-se paradigmas estéticos, misturaram-se linguagens sonoras, fomentou-se a liberdade na criação com o objetivo maior da divulgação da música livre, nacional e internacional. Mostrou-se, uma vez mais, que o jazz é uma arte dialética, influenciada pela história, pela atualidade, por todas as circunstâncias sociais que nos rodeiam. Nesta 32.ª edição foi possível escutar, como já é habitual, instrumentistas de excelência.
A abrir o segundo fim de semana de festival, a trompetista, improvisadora e compositora Susana Santos Silva apresentou-se a solo no Auditório de Serralves. Foi, dos três concertos destes dois dias, o único que decorreu num espaço físico fechado e, simultaneamente, num ambiente imaginário aberto, ao ar livre e junto da natureza – uma proeza de sensibilidade sonora singular. Susana Santos Silva é um nome já bastante conhecido de quem vagueia pelo mundo do jazz e da música improvisada, sendo hoje um dos principais nomes de referência a nível europeu. Com um reconhecido percurso mais experimental, começou pela música clássica, parte de um caminho que também se revelou em determinados momentos do seu concerto, na forma e expressividade ao tocar o instrumento. Apresentou-se a solo, mas já colaborou, ou colabora, com nomes como Kaja Draksler, Torbjörn Zetterberg, Ada Rave, Mette Rasmussen, Anthony Braxton e muitos outros.
Num auditório cheio, Susana Santos Silva apresentou-nos o seu trabalho a solo, baseado no seu disco lançado em 2022, também ele a solo,”All the Birds and a Telephone Ringing”. Com uma ousadia que já lhe é conhecida, o seu concerto foi em grande parte uma provocação ao público, no bom sentido, gerando inquietação, saída da zona de conforto, ao mesmo tempo, fazendo-o com uma subtileza e suavidade espantosas. A artista semeou perguntas no cérebro dos seus ouvintes e a curiosidade deles seguiu embalada pelo som. A sua procura sonora foi constante, quer no campo do trompete propriamente dito quer no plano eletroacústico. Trouxe consigo um dispositivo eletrónico, mas também apitos de água em forma de pássaro, flauta irlandesa, caixinha de música, tudo para nos fazer sair daquele bloco de betão e voar pelas copas das árvores verdes, onde os pássaros pousam.
Com a capacidade de relacionar o som de múltiplas formas, combinou excertos sonoros captados na natureza com elementos eletrónicos associados à sociedade contemporânea, levantando a ideia, de cariz mais filosófico e conceptual, relativa ao cruzamento do universo da máquina com o do ser humano, sendo o seu trompete um elo nesse cruzamento. A vontade de trazer a palco algo nos dias de hoje tão necessário, o cliché “parar para pensar”, ficou ainda mais sublinhada com alguns instantes de spoken word da artista, com exploração da palavra e do silêncio. Susana Santos Silva contruiu um concerto a solo com alguns momentos de virtuosismo musical no trompete, onde demonstrou o seu passado clássico, mas também com muitos períodos de improvisação e exploração do instrumento de formas nada usuais, a romper com normas, que se traduziram em novas estéticas do som, demonstrando a sua liberdade criativa e improvisadora. Qualquer acessório ao seu alcance poderia ser usado na sua exploração, como o fez com o microfone, tornando-o naquele momento uma extensão do seu instrumento e de si mesma.
Ao entrar em palco, a artista transportou o seu público para um ambiente meditativo, com sons eletrónicos graves e enigmáticos que quase permitiam visualizar as ondas acústicas que percorriam a sala e pareciam entrelaçar-se. Aos primeiros minutos, ficou claro para o público que só havia um caminho a seguir: aceitar o som como aquele pardal-do-telhado, que ora voa bem alto, ora visita os peitoris das janelas das casas, e seguir o seu voo pelo campo e pela cidade.
Ainda no dia 8, após a viagem experimental do primeiro concerto, e sob um céu azul brilhante que contrastava com as copas verdes das árvores invadidas pelo sol, apresentou-se o trio denominado João Lencastre’s Communion 3, liderado pelo já conhecido e versátil baterista João Lencastre, juntamente com Michael Formanek no contrabaixo e Jacob Sacks ao piano. A ideia de criar a formação João Lencastre’s Communion surgiu nas viagens que João Lencastre fez a Nova Iorque e pretende proporcionar o encontro entre a sua música e aquela que se faz na animada vida jazzística de Nova Iorque, aqui representada, em certa medida, por Formanek e Sacks.
Não foi a primeira vez que João Lencastre subiu ao palco do Jazz no Parque. Já no anterior fim de semana, esteve presente com o trio composto por ele, Tony Malaby e também Michael Formanek. Viu muito do seu trabalho reconhecido quando, em 2022, venceu a categoria de “Melhor Álbum de Jazz” dos Prémios Play, com o seu disco “Unlimited Dreams”, e foi considerado o “Músico do ano” nos prémios RTP / Festa do Jazz. Lencastre é conhecido no meio musical pela sua vasta versatilidade a tocar e pela facilidade com que se adapta aos músicos que com ele tocam, tendo já passado por géneros tão diversos como rock, punk, afro beat, reggae, jazz e a improvisação livre. Além de baterista, é também compositor. Com Communion 3, apresentou em Serralves músicas dos discos “Movements in Freedom” e “Song(s) of Hope”, com algumas das suas composições.
Communion 3 trouxe-nos Jacob Sacks, um dos mais criativos e dinâmicos pianistas da cena nova-iorquina, tendo liderado formações com músicos conceituados como Dan Weiss ou Tony Malaby e tendo sido finalista, em 1999, da competição internacional de jazz Thelonious Monk. É um músico brilhante e apresentou em Serralves a sua excelente conjugação harmónica e rítmica, respeitando muito claramente a construção de um coletivo sonoro. Michael Formanek, nome também já reconhecido de Nova Iorque, tem estado muito presente nos últimos tempos na cena lisboeta. Formanek é um gigante do contrabaixo, que tocou com músicos como Tony Williams, Stan Getz, entre outros.
Os três músicos entraram em palco com pés de veludo, mas não de forma tímida. Uma entrada subtil, mas, desde logo, marcadamente intensa, pelos movimentos rodopiantes, ao mesmo tempos calmos, do piano de Sacks. A música que soou deste trio, embora com alguns elementos que denotaram uma certa influência de um tipo de jazz mais tradicional, como por exemplo os pequenos instantes em que tocaram movimentos sincopados a lembrar ao público a estética do bebop, demonstrou a sua total libertação no que a padrões ou amarras estéticas diz respeito. E se, em curtos momentos, o público pôde também escutar a apresentação de pequenos temas, alguns mais melodiosos e com destaque para determinado instrumento, isso não significou que partiriam cada um deles para solos de improviso com base nesse tema. Pelo contrário, neste concerto não houve lugar a solos: a música foi sendo conduzida entre os três, alimentando a sua criatividade, inspirados na estética do free jazz e da música livre.
Escutar o piano de Jacob foi como olhar o voo das andorinhas na primavera, que fazem círculos e tangentes ilimitados, a rodopiar num céu infindável. Por sua vez, Formanek veio, mais uma vez demonstrar o que já sabemos dele, que é um colosso no contrabaixo. Foi fascinante a sua linguagem musical, os diálogos e pontes que estabeleceu, a sua rapidez na resposta e na construção de novas frases. À partida, poderíamos imaginá-lo num papel de “passar a bola” entre o piano e a bateria. Mas, nada disso ocorreu, pois Formanek não se limitou a passar a bola, também a atirou ao ar e com ela fez malabarismos. O contrabaixo nas suas mãos, é um brinquedo.
No encontro entre estes músicos também não existiu o papel tradicional da bateria e do contrabaixo como secção rítmica, pois esse papel, bem como o melódico, esteve presente em todos os instrumentos. E é com essa ideia paradoxal de construção melódica da bateria que João Lencastre sempre nos surpreende e voltou novamente a surpreender. Ver a sua versatilidade e entrega neste segundo concerto do Jazz no Parque foi como observar o trabalho meticuloso de formigas ao transportar alimento, incansáveis, sempre em busca de soluções alternativas e viáveis e sem nunca desistir nem perder a sua graciosidade.
O concerto foi tão livre e rico do ponto de vista harmónico e rítmico que se pode imaginar que as árvores a envolverem o Ténis do Parque de Serralves ficaram nutridas e suculentas para todo o ano.
A encerrar o festival, e com um poder sonoro incrível, subiram ao palco do Parque de Serralves Camila Nebbia no saxofone tenor e Sofia Borges na bateria. Não poderia haver encerramento melhor.
Camila Nebbia é uma saxofonista e compositora argentina, atualmente a residir em Berlim. Pode afirmar-se que é uma artista ativista, pois o seu engajamento expressa-se na música que faz, com alguns álbuns gravados onde explora a problemática da violência sobre as mulheres. É uma artista multidisciplinar – além de música também estudou cinema e tenta cruzar estes dois conhecimentos. Já liderou e lidera vários projetos. A sua formação musical inicial foi na música clássica, tendo posteriormente enveredado pelo jazz e, atualmente, agita as águas da música improvisada na Europa.
Sofia Borges é compositora e percussionista, com um trabalho bastante incidente sobre a bateria e na exploração de sonoridades eletrónicas. Começou por estudar música clássica, tendo depois seguido o caminho do jazz e da composição. Através da sua vertente de compositora, está também ligada ao teatro e à dança. Reside também em Berlim e participa no movimentado meio da música improvisada na Alemanha. Lançou, em 2023, o seu álbum a solo, “Trips & Findings” (4DaRecord), uma expedição entre a eletrónica e a percussão.
Sofia e Camila lançaram-se em queda livre, sobre o público do festival, com uma segurança impressionante. Abriram o concerto de forma ousada com uma primeira música totalmente composta em tempo real, o que esclareceu desde logo ao que vinham. As restantes eram composições de ambas. Rapidamente nos arrebataram com uma linguagem enérgica, altamente dinâmica, provando que o entrosamento musical entre elas é enorme. Embora estando muito ligadas à cena atual europeia da música improvisada e experimental, muito da sua tónica ao longo do concerto revelou fortes influências do free jazz nas suas origens e da formação clássica de ambas, salientando-se a rapidez com que respondiam aos desafios que uma ia lançando à outra. Tocar em duo não é tarefa fácil, pode até tornar-se tão difícil ou inglório como atravessar uma tempestade ou um deserto sem quaisquer condições – tudo depende do interlocutor. Mas, também aqui, Camila e Sofia revelaram-se brilhantes e apresentaram um concerto nos antípodas da ideia de solista e acompanhador.
Quem acompanha o trabalho de Sofia Borges, nomeadamente na bateria, confirmou novamente a sua genuína capacidade criativa, atenta aos pormenores, experimentando e arriscando e construindo uma linguagem polirrítmica, precisa, leve, meticulosa, lírica. Por sua vez, o som imenso do saxofone de Camila Nebbia revelou todo o ser percurso musical. Não estarei a exagerar se afirmar que, ao longo de vários concertos de saxofonistas a que já assisti, foi muito raro encontrar um som como o seu: cheio, orgânico, ao mesmo tempo, limpo, forte e intenso, quer quando se pretendia mais brusco, quer quando se fazia mais suave. A sua técnica também sobressaiu, não de uma forma programática ou robótica, mas sendo útil na construção frásica que cada momento musical pedia. Foi um concerto impactante, em nada monótono ou repetitivo, a expressar o fervilhar de ideias que correm no cérebro de Camila e de Sofia.
A acrescentar a toda esta intensidade, merece destaque a dificuldade técnica de fazer soar da melhor forma estes dois instrumentos ao ar livre, com a clareza de cada som, por mais mínimo que seja. E, à excelente interpretação das instrumentistas, juntou-se o magnífico trabalho dos técnicos de som. Saliento também que foram muito poucas as vezes, senão mesmo a única, em que, num concerto com estas características, ouvi um som tão claro e nítido, a fazer lembrar aqueles dias em que olhamos o horizonte e conseguimos alcançar a olho nu os pormenores inimagináveis a dezenas de quilómetros de distância.
Camila Nebbia e Sofia Borges já dão que falar e ainda vão dar muito mais. Elas estão aí para quebrar barreiras conservadoras, antiquadas, e demonstrar que não há lugares esperados para as mulheres na música, nem papéis esperados, nem estética sonora esperada. Elas vieram para caminhar na direção de uma música e de um mundo verdadeiramente livres.
O segundo fim de semana do Jazz no Parque talvez tenha contribuído para mais um, mesmo que ainda pequeno, abalo sísmico nacional, agora com epicentro em Serralves.
Texto publicado em jazz.pt | 11-07-2023:
