Rodrigo Brandão

A liberdade plena e a magia em noite de lua que parecia quase cheia

Fotografia Nuno Martins via jazz.pt

Rodrigo Brandão levou à Galeria ZDB, em Lisboa, a música do seu mais recente disco, “Outros Estado”. A acompanhá-lo estiveram Braima Galissa, Luís Vicente, Yedo Gibson, Rodrigo Amado, Felipe Zenícola, Hernâni Faustino, Carla Santana, João Valinho e Pedro Melo Alves. A jazz.pt esteve lá.

Diz o calendário lunar que a 27 de setembro de 2023 a lua esteve em movimento ascendente. Mas, ao olhar o céu, a noite parecia já de lua cheia, tal era a sua ostentação. No imaginário coletivo, estas são noites de muita magia, como se a lua, ao revelar a sua geometria esférica e falsamente luminosa, permitisse atingir estados de levitação. Será difícil provar que uma coisa tenha levado a outra, mas a verdade é que no dia 27 de setembro de 2023, quando a lua era redonda e luminosa, na Galeria Zé dos Bois (ZDB) foi possível levitar ao som do novo disco de Rodrigo Brandão, “Outros Estado. Não é o primeiro álbum deste artista, mestre na arte da poesia, de spoken word, da performance, do encantamento e da comunhão, e juntou em palco músicos de diferentes origens e percursos: Braima Galissa, na kora, Luís Vicente, no trompete, Yedo Gibson, no saxofone, Rodrigo Amado, no saxofone, Felipe Zenícola, no baixo elétrico, Hernâni Faustino, no baixo elétrico, Carla Santana, na eletrónica, João Valinho, na bateria e Pedro Melo Alves, na bateria. O disco, agora lançado na ZDB, resulta da residência “LX Livre”, cuja ideia foi possibilitar ao público presenciar ao vivo a gravação de um conjunto de artistas com grande liberdade na sua criação, realizada em dezembro de 2021. Do resultado de “LX Livre” surgiu um outro registo criativo: um pequeno filme de Artur Castro Freire, a retratar os dias de gravação, e que foi apresentado antes do concerto, ao estilo de um prefácio que anunciou e contextualizou o que viria a seguir.

O mundo africano vive em Rodrigo Brandão, e a sua profunda influência demonstrou-se logo de início, com uma carga altamente simbólica, ao som da kora de Braima Galissa, um instrumento enraizado na música da África Ocidental e que, na forma como é tocado – nas escalas, intervalos  e harmonias usadas – transposta os ouvintes para a escuta de um mantra, que traz sensações de paz interior, de harmonia, de simbiose, respeito, algo muito presente na  mensagem de Rodrigo Brandão, que aproveitou esse momento para lembrar que 27 de setembro é o dia de Cosme e Damião, e que aquele concerto também era para celebrar a criança que há em cada um daqueles que lá esteve, como público ou como músico. A mensagem do autor deu muito ênfase às suas referências negras da cultura brasileira, sublinhando o mundo do candomblé e destacando nomes importantes na história da música do Brasil, entre outras referências no plano internacional, como a menção à cantora Billie Holiday.  

Usando a ironia, o sarcasmo, a insubmissão, a rebeldia, o questionamento, a felicidade, a empatia, o centro da mensagem inquietante do autor e performer levantou muitas questões filosóficas, políticas e sociais, num tom poético/subversivo que pôde levar os ouvintes a sentir e a pensar que uma ideia e a sua a imaginação será tão mais criativa quanto libertária. Rodrigo Brandão levantou o dedo e questionou, ao mesmo tempo que denunciou o capitalismo, a sociedade de consumo, o mundo do trabalho, o egoísmo, o racismo… deu força à ideia de resistência e, com uma beleza que veio do seu ser profundo, da sua essência, empoderou a ideia de liberdade com palavras de igualdade, fraternidade, ancoradas na perspetiva de um mundo justo, sem sofrimento, sem injustiças. Fê-lo com uma energia tão avassaladora, que só um conjunto de improvisadores intensos e livres, como os que estiveram em palco, o pôde acompanhar, tornando o sonho possível por mais de uma hora de concerto.

Rodrigo Brandão, na sua humildade muito própria, na sua capacidade de união, não só juntou em palco instrumentos cuja história é tão diversa e cujas origens estão em África (kora), ou Europa (sopros), ou América (bateria), como colocou as suas diferentes linguagens em sintonia e em diálogo, salientando na musicalidade a ideia de igualdade.  E, à exceção de quando o público pediu “bis”, nunca os músicos estiveram todos ao mesmo tempo em palco, circulando de forma fluída, uns dando lugar a outros, sem nunca se sobrepor. A acompanhar a sua performance, houve momentos musicais intensos, desde ritmos africanos na bateria, a momentos punk/rock no diálogo com o baixo elétrico, a fases com maior influência da música improvisada nos sopros e na eletrónica. Todos tiveram o seu momento e, apesar da intensidade e do espaço da sala ser muito pequeno, a música soube ser duplamente harmoniosa e subversiva, como a mensagem da sua palavra.

Rodrido Brandão e os seus músicos, plenos de energia e entrega, partilharam com o público a sua magia e receberam o retorno merecido. Debaixo de uma lua que parecia cheia, a ode à vida, à essência e à plenitude de todos os seres humanos em igualdade e inteiramente livres, levitaram na Galeria Zé dos Bois. 

Texto publicado em jazz.pt | 29/09/2023:

https://www.jazz.pt/reports/a-liberdade-plena-e-a-magia-em-noite-de-lua-que-parecia-quase-cheia

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